Guardanapos

Guardanapos pra limpar a boca, enxugar as mãos, proteger os talheres, dobrar ao lado do prato, estender sobre as pernas, usar como babador. Para as flores de origami, anotar telefones, transmitir um recado, enxugar uma lágrima, assoar o nariz, fazer um pedido ao cantor, enviar um torpedo através do garçom, limpar o prato antes da refeição, recolher o chiclete discretamente e tudo aquilo que não cair bem ao  paladar.

Guardanapos para os alimentos gordurosos, os molhados, os escorregadios, os gelados e os quentes demais. Para os momentos de inspiração, para quando o compositor não pode perder um rascunho de canção, para a poesia, para a melodia, para escrever bobagens no almoço de todo dia, para a impressão digital, também para o cheiro do perfume, a marca do batom e para enxugar a testa num dia de muito calor, guardanapos para  traduzir, conduzir, seduzir e para não se expor…guardanapos inclusive para falar de amor.

 

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As meninas de hoje em dia

Na balada, no shopping, no cinema, na discoteca (ainda se diz discoteca?), nas escolas, nas grandes e pequenas cidades, no ponto de ônibus ou no banheiro feminino, seja lá onde for, as meninas de hoje em dia não me parecem mais as mesmas. É claro que são outros tempos, mas as garotinhas dos tempos modernos me surpreendem e me chocam.

Lembro-me com alguma nostalgia das garotas entre os 13 e os 17 anos de idade nos anos 80, essas eram as meninas da minha época de menino, e elas eram mais reservadas, sabiam se colocar e se comportar em diversos ambientes, demoravam um pouco mais para experimentar e permitir o sexo com seus namoradinhos, engravidavam com bem menos frequência, colecionavam papéis de carta e faziam os melhores trabalhos escolares, enfim, eram mais meninas.

É claro que sempre existiram exceções, desde o começo dos tempos há meninas que se jogam pela vida mais cedo, às vezes por condições que nem temos como discutir, é a família, a pobreza, a violência, enfim, cada uma tem sua história, mas hoje em dia eu vejo uma vulgarização e uma banalização extrema de tudo que diz respeito a essa fase tão legal que é a adolescência. Eu as vejo rebolando demais no baile funk, transando sem camisinha porque é mais legal, andando armadas na escola e agredindo outras colegas, usando roupas vulgares e atrevidas, insinuando-se com naturalidade para os homens, engravidando aos 13, 14,15…, enfim, vejo as meninas se perdendo e fico me perguntando onde é que estão errando com elas.

Já sou titio de uma menina e um dia provalmente serei papai, sei que tenho minha parcela de responsabilidade. Enfim, sinto saudade de como eram as meninas do meu tempo, mas como diz o Paulinho da Viola, “meu tempo é hoje”, e sendo assim, espero que nós adultos possamos orientar e educar nossas meninas, um dia elas se tornarão grandes mulheres.

O incrível “Huck”

Para nós, meros mortais e expectadores, às vezes é difícil encontrar um artista com um brilho diferente, que tenha uma estrela especial, daqueles que despertam admiração e respeito, já falei sobre a Ivete Sangalo uns tempos atrás. Chegou a hora de falar de uma outra celebridade para quem eu tiro o chapéu, e ele se chama Luciano Huck.

Gosto de assistir ao programa Caldeirão sempre que posso, e fico  realmente emocionado com algumas das histórias tristes, piegas e reais que ilustram vários quadros da atração, mas tudo isso é apenas o mundo da televisão. O que eu realmente admiro nesse cara é que ele tem consciência do que ele representa para milhares de fãs que esperam para realizar um sonho da casa, do carro ou da grana para pagar as dívidas. Quando vejo o cara na televisão ele me trasmite uma coisa que é difícil de se ver na tv, ou seja, preocupação real com o outro ser humano. Ele sabe utilizar a poderosa ferramenta que é a Rede Globo para oferecer oportunidades para pessoas simples, e essa é a receita de sucesso do Luciano e do programa.

É claro que ele ganha muito bem para tudo isso, tem um lindo salário e vários outros contratos de imagem, mas é também um grande empreendedor, um cara de verdade, que não faz média diante da realidade de quem não tem nada. Talvez ele até seja um artista chatão, do tipo que dá esporro nos bastidores, enche o saco dos subordinados, sei lá, mil coisas, mas na minha tela ele transmite um ótima imagem. Eu sempre achei que o Luciano Huck era apenas mais um playboy bem sucedido, um cara oportunista que se deu bem pelo fato de ter nascido em boa família e ser bem relacionado, e tudo isso também é verdade, mas ele tem uma coisa que falta em muita gente poderosa nesse país, seja gente de tv, empresários ou governantes, ele tem um coração enorme, maior do que o próprio caldeirão que ele criou, e como se não bastasse já namorou a Ivete e ainda nos deu de presente a Tiazinha e a Feiticeira, é mole? Portanto, eu tiro o chapéu!

E vc, tira o chapéu pra quem?

Saudades do velho Chico

Era dia de receber ovinhos de páscoa na escola, eu estava com uns 10 anos de idade e nessa época eu era o responsável por levar minha irmã menor para a escola, íamos juntos carregando aquelas enormes mochilas nas costas, enquanto minha mãe trabalhava numa fábrica ali por perto.

Era assim mesmo, meu pai estava quase sempre ausente, nos últimos anos de sua vida ele se ausentou por vários motivos, mas principalmente pelos problemas com o álcool. Sumia no mundo durante dias e depois reaparecia do nada. A gente era muito criança pra entender, mas ele era um homem doente, um dependente químico que precisava de ajuda. No dia dos ovinhos de páscoa eu estava bem contente com meus chocolates e minha máscara de coelho, mas uma inspetora de alunos foi lá me buscar e dizer que o meu pai tinha sofrido um acidente, eu precisava pegar minha irmã e ir pra casa junto com uma tia que nos aguardava.

Sem entender direito o que era um acidente, fomos absorver mais tarde que meu pai havia morrido. Longe de casa e da família, numa de suas muitas viagens absurdas ele foi parar na Bahia, visitando parentes antigos, e por lá teve uma forte crise de pneumonia, já em estado avançado, e não sobreviveu.

Meu velho foi vítima do álcool. Morreu antes de completar 40 anos de idade e deixou para trás poucas lembranças, minha memória infantil se perde ao tentar lembrar de fatos que pudessem eternizá-lo, mas eu sei de toda história dele, eu me lembro de ouvi-lo cantar pelos corredores da casa, uma voz a la Nelson Gonçalves, ele adorava seresta, lembro de um assobio que ele utlizava para chamar a mim e minha irmã de forma carinhosa, também me lembro de uma única vez em que ele me botou pra correr com um cinto na mão, e ele tinha razão nesse dia, enfim, tenho poucas, mas boas lembranças, mas sinto falta de mais. Em pouco tempo terei a idade que ele tinha quando partiu, e se tem uma coisa que me faz uma falta enorme é não ter visto seus cabelos ficarem branquinhos de verdade…eu queria muito poder dar um abraço naquele meu velho, afagar sua cabeça, beijar sua face, trocar idéias, mostrar para ele o homem que me tornei, vê-lo um dia brincar de vovô com meu filho…enfim, eu queria muito que ele tivesse se cuidado mais, queria poder ter o parceiro que às vezes só um pai sabe ser, mas hoje já não é mais possível.

Sei que onde ele estiver deve estar olhando pela família, deve estar orgulhoso de alguma forma, deve entender que aqui na terra ele ainda faz uma falta enorme e fará para sempre, mas ele sabe que a vida segue e que nosso amor não muda nunca. Nesse domingo de agosto me bate mais forte a lembrança do Francisco, uma saudade do meu querido e velho Chico, o Chicão…uma saudade enorme do meu pai.

Esquinas

A gente às vezes se perde pelas calçadas do cotidiano, tropeçamos em pedregulhos e buracos pelo caminho, esbarramos em pessoas e mal percebemos, fugimos da sarjeta e vivemos sentimentos no meio fio. Sozinho no meio da multidão, você pára embaixo de uma marquise e tem a sensação de que todas as pessoas que você um dia amou, por algum motivo já se foram, partiram com outros e para outros amores, fizeram suas opções, seguiram seus caminhos. Você olha para trás numa longa calçada, praticamente um calçadão, e vê que o Cazuza tinha razão, o tempo não pára, portanto, as pessoas seguem realizando seus projetos, amando de montão,  fazendo filhos, construindo coisas e vivendo a vida, mas a calçada não permite que você faça retornos, é preciso seguir adiante.

Você segue em frente, às vezes tropeçando, noutras desviando das armadilhas, até que um dia você chega numa esquina, e ao chegar lá você encontra uma nova calçada a ser percorrida, é nessa esquina que você esbarra com mais de mil possibilidades. Ali na esquina a chance de mudar, de começar de novo, de fazer diferente, a chance de encontrar  um novo amor, talvez alguém que possa percorrer calçadas contigo. As esquinas surgem a todo momento na nossa trajetória, é assim mesmo, às vezes demora, mas uma hora dessas a gente vira numa delas e sai cantando coisas da Marisa Monte como “…e no meio de tanta gente eu encontrei você, entre tanta gente chata, sem nenhuma graça…” .

Todo mundo merece. Namastê!