Contos telefônicos

Despertou no meio da madrugada, suada, ofegante, feliz, um sonho estranho, não lembrava direito o roteiro, mas havia por lá um rosto conhecido, na verdade um rosto que ela não conseguia esquecer. Levantou-se da cama sem fazer muito barulho e deixou o marido dormindo o sono dos justos. Desceu pelas escadas com o coração acelerado, não entendia porque depois de tanto tempo ainda tinha aqueles sonhos malucos, pensamentos libidinosos e uma imensa vontade de fazer loucuras, de viver uma outra vida. No andar de baixo dirigiu-se para a cozinha e procurou um copo com água, tentou acalmar-se, sabia que aquilo não acontecia de forma proposital, mas ela não podia evitar pensar nele, às vezes chegava à conclusão de aquilo era um karma, talvez alguma pendência de vidas passadas, algo que precisava ser resolvido e finalizado. Que tortura meu Deus, que sofrimento, que perigo, que delícia sonhar de vez em quando em silêncio e acordar sobressaltada como naquela noite. Só ela sabia o quanto. Por um instante viajou com o copo de água na mão e por pouco não o deixou cair, dirigiu-se para um canto da sala que servia de pequeno escritório, uma escrivaninha com um computador, que ela e o marido utilizavam em comum acordo, livros, filmes em DVD, fotos e mais um monte de papéis. Contas a pagar, anotações diversas, e…onde será que estava? Tinha certeza de que ficava por ali, em algum lugar entre as contas e as correspondências, era tudo bem organizado, mas naquela euforia ela se enrolava toda, o marido podia acordar, ela deveria voltar logo para a cama. Abrindo gavetas deparou-se com a pequena agenda telefônica, aquelas onde só cabem os nomes e números, era uma agendinha antiga, parecia coisa de menina, na verdade era coisa de menina, ela guardara a agenda desde os tempos de colégio e ali estavam os números das amigas do passado, a Lú, a Pri, a Má, a Rô, a Fá, enfim, a turma da escola e outros conhecidos, e ela sempre dizia que um dia passaria tudo a limpo numa nova agenda, bobagem. Sabia que o nome dele não estava assim facilmente disponível, havia lá um código, que somente ela e algumas das amigas da adolescência poderiam decifrar. Alguns rabiscos, pareciam coisa árabe, eram a senha para o número dele, nem lembrava de onde veio essa idéia, mas assim protegia seus pensamentos e guardava seus segredos. Pegou o próprio celular e discou 99 alguma coisa, no momento não estava preocupada se ele poderia identificar a chamada ou não. Dois ou três toques depois e uma voz sonolenta atendeu ao chamado “Alô…alô…quem é?…São três da manhã, quem é por favor? Alô, se não falar nada vou desligar…”. Talvez tenha durado uns trinta segundos, telefone mudo, uma eternidade. Ele não ouviu resposta e também não reconheceu aquele número. Do outro lado da linha ela desligou o aparelho e arrancou a bateria, seu coração batia mais que descompassado, parecia querer pular pela boca. Aquela voz continuava a mesma, parecia que ela podia sentir o cheiro da respiração dele, vê-lo de perto e tocá-lo como antigamente, que loucura. Aos poucos foi se acalmando, no fundo do coração batia um medo enorme de nunca mais poder ao menos ouvi-lo, que bom o número ainda ser o mesmo. Aquele número, aquela voz de vez em quando, era tudo que havia restado, tinha a impressão de que morreria sem esse pequeno alento, mas não podia colocar toda sua vida em risco. Voltou para a cama e no dia seguinte dirigiu-se a uma loja de celulares para trocar o número de seu aparelho pela milésima vez, como sempre fazia após essas crises de abstinência. Do outro lado da cidade, na mesma manhã, ele também acordou disposto a trocar seu número, estava cansado de trotes, sempre um número estranho que o acordava no meio da noite e depois se transformava num eterno enigma “o telefone chamado não existe, favor consultar o catálogo de informações”.

Anúncios

4 comentários sobre “Contos telefônicos

  1. SAAAAAAAAAAAAAAAAALLLLLLLLLLLLLLLLL,

    AMEEEEEEEEEEEIIIIIIIIIIIIIIII!!!
    Quando você vai escrever um livro???

    Beijo…

  2. Acho que já havia lido este texto…
    Sem dúvidas, muito bom!
    Quem nunca se pegou pensando em alguém que atire a primeira pedra!
    Bjos querido, saudades!

  3. Sall…
    Amei que vc postou de novo esse texto!
    Muito bom…
    Já passei por isso uma vez, mas resolvi enterrar e colocar uma pedra em cima.
    Deu certo!
    Hoje vivo bem melhor e consegui superar…
    Sou feliz assim!
    Um big beijo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s