Se eu não lhe disser nada, não me manifestar de alguma forma, não emitir um sinal de fumaça, não me declarar, me expor, não lhe der ao menos uma dica, você jamais saberá o que se passa em minha mente, jamais entenderá a profundidade do lago escuro que é o meu coração, jamais poderá imaginar a grandeza ou a pequenez do meu sentimento, jamais decifrará se o que sinto é verdadeiro ou falso, se tenho saudade, raiva, desejo intenso ou apenas um leve tesão por você.
Se eu nada lhe disser, lhe dou o direito de imaginar o que bem quiser a respeito do meu silêncio. Você poderá entendê-lo como desprezo, como indiferença, como fuga, alternativa, opção, como a melhor saída, enfim, poderá interpretá-lo como bem entender, e mesmo que você consiga chegar bem perto do que pode ser a verdade sobre o silêncio, se eu nada lhe disser, sua interpretação não tem validade pra mim. Por essas e outras que entre calar e falar eu prefiro falar, mesmo que magoe, mesmo que eu pareça ridículo, mesmo que seja demais, mesmo que você não me dê ouvidos, mesmo que eu tenha que eventualmente falar entre lágrimas. O calar me faz sentir aprisionado, limitado, engasgado, incompleto, incompetente, talvez um covarde, me traz um arrependimento maior do que eu posso ter, caso chegue à conclusão de que falei demais.
Por fim, entendo que o silêncio se faça necessário em corredores de hospital, durante os cultos religiosos, em reuniões de trabalho quando o chefe está falando, quando os mais velhos narram seus conselhos e experiências, quando o professor fala, quando um burro fala e quando devemos baixar nossas orelhas. Existe a hora e o momento adequado para o silêncio, mas entre nós dois não cabe mais esse intervalo, é melhor falar tudo, falar agora e não ficar pensando em calar para sempre, portanto, chega de silêncio, chega de meias palavras, na verdade está na hora de dar um grito: Eu te amo, porra!
Pronto, falei. Mas se você preferir, não diga nada, fique em silêncio…você é quem sabe.
Trilha Sonora
Escrito por Sall
Escrito por Sall 
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