Era dia de receber ovinhos de páscoa na escola, eu estava com uns 10 anos de idade e nessa época eu era o responsável por levar minha irmã menor para a escola, íamos juntos carregando aquelas enormes mochilas nas costas, enquanto minha mãe trabalhava numa fábrica ali por perto.
Era assim mesmo, meu pai estava quase sempre ausente, nos últimos anos de sua vida ele se ausentou por vários motivos, mas principalmente pelos problemas com o álcool. Sumia no mundo durante dias e depois reaparecia do nada. A gente era muito criança pra entender, mas ele era um homem doente, um dependente químico que precisava de ajuda. No dia dos ovinhos de páscoa eu estava bem contente com meus chocolates e minha máscara de coelho, mas uma inspetora de alunos foi lá me buscar e dizer que o meu pai tinha sofrido um acidente, eu precisava pegar minha irmã e ir pra casa junto com uma tia que nos aguardava.
Sem entender direito o que era um acidente, fomos absorver mais tarde que meu pai havia morrido. Longe de casa e da família, numa de suas muitas viagens absurdas ele foi parar na Bahia, visitando parentes antigos, e por lá teve uma forte crise de pneumonia, já em estado avançado, e não sobreviveu.
Meu velho foi vítima do álcool. Morreu antes de completar 40 anos de idade e deixou para trás poucas lembranças, minha memória infantil se perde ao tentar lembrar de fatos que pudessem eternizá-lo, mas eu sei de toda história dele, eu me lembro de ouvi-lo cantar pelos corredores da casa, uma voz a la Nelson Gonçalves, ele adorava seresta, lembro de um assobio que ele utlizava para chamar a mim e minha irmã de forma carinhosa, também me lembro de uma única vez em que ele me botou pra correr com um cinto na mão, e ele tinha razão nesse dia, enfim, tenho poucas, mas boas lembranças, mas sinto falta de mais. Em pouco tempo terei a idade que ele tinha quando partiu, e se tem uma coisa que me faz uma falta enorme é não ter visto seus cabelos ficarem branquinhos de verdade…eu queria muito poder dar um abraço naquele meu velho, afagar sua cabeça, beijar sua face, trocar idéias, mostrar para ele o homem que me tornei, vê-lo um dia brincar de vovô com meu filho…enfim, eu queria muito que ele tivesse se cuidado mais, queria poder ter o parceiro que às vezes só um pai sabe ser, mas hoje já não é mais possível.
Sei que onde ele estiver deve estar olhando pela família, deve estar orgulhoso de alguma forma, deve entender que aqui na terra ele ainda faz uma falta enorme e fará para sempre, mas ele sabe que a vida segue e que nosso amor não muda nunca. Nesse domingo de agosto me bate mais forte a lembrança do Francisco, uma saudade do meu querido e velho Chico, o Chicão…uma saudade enorme do meu pai.